Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres" Rosa Luxemburgo

Celeiro do mundo, comida importada.

(Andreia Fanzeres23/10/2008, 07:00)
Caiu na boca do povo. Se o assunto é oposição à ampliação de áreas protegidas ou rebater críticas ao avanço da agropecuária sobre áreas de floresta, empresários e políticos matogrossenses disparam o que consideram seu melhor argumento: graças à capacidade do estado de produzir alimentos em volume planetário, boa parte do mundo come. É verdade. A terra no Mato Grosso é generosa. Mas não com seus filhos. Não fosse o mundo, em especial o resto do Brasil, eles passariam fome. De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Rural de
Agricultores familiares vendem sua pequena produção na feira
livre de Juína/MT (Foto: Andreia Fanzeres)

Mato Grosso (Seder), 56% de todos os alimentos consumidos por aqui são “importados” de outros estados. E, dependendo do produto, esse percentual pode ser muito superior.

O presidente da Associação dos Supermercados de Mato Grosso (Asmat), Altair Pierozan Magalhães, explica que é muito amplo discutir esse assunto, especialmente num universo de 30 mil itens que são disponibilizados em um dos maiores mercados de Cuiabá, onde trabalha. Mas quando perguntado sobre quais são os principais itens que ele precisa encomendar de outros estados, responde: “Tudo. A não ser óleo de soja, mandioca, açúcar e carne”, de maneira geral. Segundo ele, apesar de haver sempre uma ou outra marca de produto local que concorra com os trazidos de outras regiões, isso é considerado irrelevante. “Nós não temos fábrica de massa, ou qualquer outra, apenas duas empacotadoras de arroz e açúcar. Não produzimos batata, cebola, tomate, nada disso”, revela Magalhães.

Por causa da necessidade de importação de alimentos, o mato-grossense depende de viagens de caminhões que demoram de três a sete dias para que itens básicos cheguem às prateleiras. Em Cuiabá, a maioria vem de estados produtores como São Paulo. No interior, fortemente colonizado por paranaenses, catarinenses e gaúchos, as compras costumam ser feitas no setor atacadista de Curitiba.

Municípios do porte de Juína, por exemplo, no noroeste do estado, mantêm uma pequena produção familiar que abastece em cerca de 50% as necessidades dos mercados em frutas, legumes e verduras. Mesmo assim, em diversas épocas do ano, é preciso encomendar do Paraná itens como banana, cebola, cenoura, mamão, beterraba, laranja, sem falar, é claro em produtos típicos de clima mais frio que de vez em quando aparecem nas prateleiras, como morangos vendidos ao preço de 10 reais a caixa pequena.

Altair Magalhães, da Asmat, estima que os produtos trazidos de outros estados sofram um acréscimo de 3 a 5% no preço por causa do frete, que é barato na sua opinião. “Mesmo se a produção fosse daqui, não haveria grande variação de preço para o consumidor”, diz ele. A diferença, no entanto, seria permitir que o dinheiro circulasse pelas diversas regiões do estado, gerando renda, emprego e impostos para dentro de Mato Grosso.

“Temos no estado alguns produtores, claro, mas não temos vocação para hortaliças, por exemplo”, diz. Ele acredita que a razão para essa necessidade de importação seja característica da colonização que ocorreu no estado. “Eu não sou do ramo, não sei se produzir essas coisas é mais fácil ou mais difícil. Eu só não consigo entender por que Mato Grosso não tem um produtor de batata. Por que aqui a gente não produz nada?”, indaga-se.

“Falta planejamento de produção”, diagnostica José Alfredo da Costa Marques, assessor especial da Seder. O estado que se vangloria por segurar a balança comercial do Brasil no azul, que transformou 8,6 milhões de hectares em lavouras mecanizadas de grãos, e tem 25 milhões de hectares de pastagem ainda não conhece sua própria produção interna de alimentos.

Vazios agropecuários

Conhecimento e incentivos à agricultura familiar diminuiriam a dependência de alimentos em Mato Grosso. (Foto: Andreia Fanzeres)

Dados do Ministério da Agricultura apontam que algo entre 60 e 70% dos produtos que compõem a mesa do brasileiro vêm da agricultura familiar. De acordo com Heitor Medeiros, superintendente de agricultura familiar da Seder, a secretaria analisa a possibilidade de começar esta missão em escala regional através de uma reunião com os principais compradores do estado para montar o diagnóstico. “Agora, queremos fazer um novo diagnóstico para saber o que já existe de produção interna. Vamos organizar os 14 municípios da baixada cuiabana e analisar a vocação e o volume de produção para um consumo regular”, acrescenta Costa Marques.

Em 2006, Mato Grosso deu o primeiro passo desse levantamento. A Seder encomendou uma pesquisa que abrangeu os municípios de Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres, Rondonópolis, Sinop, Alta Floresta e Colíder, que representam 47% dos consumidores de 58 itens entre frutas, legumes e verduras. Ela revelou que das 181,5 mil toneladas consumidas por Mato Grosso nesses gêneros, 64,1% das frutas vêm de fora, assim como 47,5% dos legumes e verduras. E ainda que 211,5 milhões de reais são enviados a outros estados para importação de alimentos. “Ao fazer isso, Mato Grosso perde ICMS além de 30 mil empregos que poderiam ser gerados na agricultura familiar”, estima Costa Marques.

Lavoura de soja no noroeste de Mato Grosso. Agronegócio ocupa 8,6 milhões de hectares no estado. (Foto: Andreia Fanzeres)

Se o estado importa quase tudo que enche o prato de seus três milhões de habitantes, não deixa claro para onde vai a produção monumental de suas lavouras. De acordo com o superintendente da Confederação Nacional de Abastecimento (Conab) em Cuiabá, Ovídio Costa Miranda, esta é uma informação que as grandes empresas agrícolas costumam segurar. “Eles são muito fechados, é um jogo de mercado”, comenta.

Procuradas pela reportagem, as grandes tradings de grãos como Bunge, Cargill e Amaggi, além das processadoras de aves e suínos como Sadia e Perdigão, não divulgaram o volume anual de sua produção nem sua destinação. O Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea) informou que também não é capaz de estimar o quanto da produção local de bens alimentícios abastece o mercado interno de Mato Grosso, mas afirma que 23% da carne foram exportadas no ano passado, assim como 44% da soja em grãos na safra 2007/2008. A Conab também não dispõe de dados estadualizados sobre oferta e demanda de cada um dos itens alimentícios que analisa, o que não envolve hortifrutigranjeiros. “Infelizmente a gente não tem estrutura para fazer este trabalho regional”, explica Miranda.

Fonte: CONAB

Área plantada em MT na safra 2007/2008: 8.632,1 hectares (ou 56,12% da área plantada na região Centro Oeste)

Produção: 28,3 milhões de toneladas.

Área plantada (mil hectares) Produção (mil toneladas)
Algodão (caroço) 541,8 2.129,3
Arroz 238,9 680,9
Feijão 89,2 136,6
Girassol 60,4 81,4
Milho 1.843,1 7.929,3
Soja 5.696,2 17.882,2
Sorgo 159,7 323,9

Para tentar minimizar a dependência de alimentos de Mato Grosso em relação aos outros estados, a Seder aposta na criação de um centro de comercialização da agricultura familiar. A idéia é montar um centro de comercialização de frutas, legumes e verduras oriundos de municípios num raio de 200 quilômetros de Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá. A previsão do governo estadual é que até o fim deste ano o centro já esteja em funcionamento.Segundo o Imea, o rebanho de aves no estado é de 17,451 milhões de cabeças e o de suínos é de 1,439 milhões de animais. Os dados são atribuídos ao IBGE no ano de 2006. O rebanho de bovinos, de acordo com números do Instituto de Defesa Agropecuária do estado de Mato Grosso (Indea), é de 25,740 milhões de cabeças em 2007.

“Os recursos já estão assegurados. Falta só terminar o calçamento interno, a rede de distribuição de água e o acesso”, diz o assessor da Seder. Louvável iniciativa, mas que na opinião de Altair Magalhães, supermercadista de Cuiabá, já devia ter acontecido há 20 anos. “Não estão fazendo nada que não seja a obrigação do estado. Qualquer cidade do interior de São Paulo tem seu centro de comercialização. Quanto mais demorar, mais difícil vai ser saber que produto temos no interior”, diz.

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